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Corvos necrófagos memorizam vastas áreas dos territórios de caça dos lobos, diz estudo
A parceria entre corvos e lobos remonta à mitologia nórdica — as aves de Odin exploravam o terreno à frente e levavam presas aos caninos do deus, uma relação que fornecia alimento para todos.
O mito tem alguma base na realidade: quando lobos realizam uma caça bem-sucedida, os corvos costumam ser observados primeiro na cena — e uma nova pesquisa publicada na última quinta-feira (12) na revista Science colocou a lenda à prova.
As conclusões do estudo sugerem que as aves estão fazendo mais do que apenas seguir os caçadores: elas estão usando técnicas de navegação e memória espacial para se alimentar de carniça com sofisticação.
Embora "os corvos já sejam bem conhecidos por sua inteligência", disse à AFP o autor principal Matthias-Claudio Loretto, observar essas capacidades cognitivas "se manifestarem em uma escala muito maior na natureza" produziu resultados surpreendentes.
Os corvos não estavam apenas seguindo os lobos — estavam registrando padrões de abate e criando mapas mentais para apoiar futuras buscas por alimento.
A equipe internacional de pesquisa prendeu pequenos rastreadores de GPS em 69 corvos — um número impressionante considerando o trabalho minucioso necessário para capturar essas aves particularmente observadoras.
"Mesmo pequenas mudanças no ambiente podem deixá-los desconfiados", disse Loretto, que trabalha na Universidade de Medicina Veterinária de Viena e iniciou a pesquisa no Instituto Max Planck de Comportamento Animal.
A equipe também tinha dados de movimento de 20 lobos com coleiras de rastreamento no famoso Parque Nacional de Yellowstone, uma vasta área protegida no oeste dos Estados Unidos onde os lobos foram reintroduzidos em meados da década de 1990 após 70 anos de ausência.
O parque era particularmente adequado para o estudo.
"Esse trabalho não teria sido possível em nenhum outro lugar além de Yellowstone", disse o coautor e cientista da vida selvagem John Marzluff, da Universidade de Washington.
Como o ambiente é aberto, em vez de densamente arborizado, tanto as aves quanto os lobos são relativamente fáceis de observar a longas distâncias, explicou ele à AFP.
— Cognição animal "sofisticada" —
Ao longo de dois anos e meio de monitoramento, os pesquisadores ficaram intrigados ao encontrar apenas um caso de um corvo seguindo um lobo por mais de uma hora — mesmo assim, as aves ainda conseguiam chegar rapidamente ao local de uma morte.
Uma análise mais profunda mostrou que os corvos, na verdade, estavam revisitando locais onde os lobos costumam derrubar presas — animais como veados, alces ou bisões — sugerindo que as aves estavam criando e memorizando uma "paisagem de recursos".
Alguns pássaros voavam até 160 quilômetros em um único dia, procurando lugares onde pareciam esperar encontrar presas abatidas por lobos.
Era "uma área muito maior do que eu jamais imaginei", disse Marzluff.
Sinais de curto alcance ainda importam: os corvos podem seguir indícios como uivos de lobos para encontrar abates recentes a distâncias menores.
Mas, de modo geral, os pesquisadores disseram que os corvos estavam contando com sua memória para orientar a busca.
As mortes provocadas por lobos não estão distribuídas ao acaso, disse Loretto, ocorrendo com mais frequência em terrenos mais planos ou em vales abertos, onde perseguições são mais prováveis.
Os corvos podem lembrar de refeições anteriores ou notar sinais indiretos, como ossos, ao estabelecer seus mapas mentais.
"A cognição animal na natureza às vezes pode ser mais sofisticada do que tendemos a supor", afirmou Loretto.
— Um acordo desigual —
A relação entre lobos e corvos às vezes é descrita na cultura popular como harmoniosa, mas Marzluff disse que, no fim das contas, ela é bastante desigual.
Lobos já foram observados espantando as aves, chegando até a designar um membro da alcateia para ficar de guarda.
Os corvos brigam ruidosamente por seu banquete roubado, o que pode servir de pista para outros animais necrófagos.
E um único corvo pode carregar cerca 220 gramas de carne. Quando chegam às dezenas, isso pode fazer até um bisão abatido desaparecer rapidamente, disse Marzluff.
"Os corvos tiram muito mais proveito desse acordo do que os lobos", acrescentou.
O cientista disse esperar que pesquisas futuras se concentrem em como as aves jovens desenvolvem esse conhecimento.
"Os corvos fascinam as pessoas há muito tempo", disse Marzluff, observando que as aves já foram consideradas desde "criadoras e trapaceiras" até "pragas oportunistas".
Mas "nunca imaginamos ou esperamos, acho eu, que fossem capazes de manter em seus cérebros, que não são muito maiores que o polegar de um homem, informações sobre milhares de quilômetros quadrados", disse.
"Nós os subestimamos."
Y.Ponomarenko--CPN