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Torcedores africanos viram as costas à África do Sul na Copa do Mundo após violência xenófoba
"Temos que dar uma lição neles!". Após episódios de violência xenófoba na África do Sul, os países africanos agora se voltam contra a seleção, e muitos torceram, na quinta-feira (18), pela República Tcheca contra os 'Bafana Bafana'.
"Tudo no futebol é política. E somos contra aquilo que a África do Sul defende", afirma Shahim em um bar esportivo em Nairóbi. Esta queniana de 37 anos cerrava os punhos de alegria a cada erro dos sul-africanos.
"Gostaríamos que a maioria dos sul-africanos estivesse contra o que está acontecendo em seu país, que se opusessem à violência xenófoba. Mas isso não acontece", lamenta.
Há vários meses, a África do Sul vem sendo palco de manifestações que pedem a saída de imigrantes irregulares. Estas manifestações não são excessivamente numerosas, mas são acompanhadas de uma onda de ódio xenófobo na internet e receberam grande repercussão na mídia.
"Apoiamos o resto das equipes africanas. Mas queremos mostrar aos sul-africanos que seus atos têm consequências", concorda Fatma, uma agricultora de 34 anos, amiga de Shahim. "Quando você tem complexo de superioridade, é só você quem sofre", completou.
A África do Sul anunciou, no domingo, ter repatriado 2.745 estrangeiros em uma semana, após a promessa do presidente Cyril Ramaphosa de endurecer a luta contra a imigração irregular.
Assim, nas últimas semanas, Gana e Nigéria receberam várias centenas de seus emigrantes.
Cerca de 600 moçambicanos também voltaram ao seu país de origem após a violência na cidade de Mossel Bay (sul), que, segundo a polícia, já deixou dois mortos (cinco, de acordo com autoridades de Maputo) e desencadeou saques e incêndios voluntários desde o início de junho.
Esta situação não cai bem no restante da África. Muitos adquiriram certa implicância com a seleção do país, os 'Bafana Bafana', como forma de protesto contra essa situação.
Com isso, vários africanos estão dispostos a apoiar qualquer um dos adversários que a África do Sul enfrentar na Copa do Mundo.
Os comentários de apoio ao México, que derrotou a a seleção sul-africana por 2 a 0 na partida de abertura, ficaram bem representados em uma montagem que mostrava um mapa do continente coberto com a bandeira mexicana, exceto a África do Sul.
- "Mensagem entendida" -
"A África do Sul nem sequer pode atacar o México. Os únicos que podem atacar são os ganeses que vivem em seu país", denunciou no X, antes do primeiro jogo, o influenciador ganês Eric Boateng.
"Todo o continente parecer ter se tornado afro-mexicano", ironizava Wode Maya, um dos criadores de conteúdo em vídeo mais seguidos do mundo. Em outro gesto de apoio temporário ao México, pediu aos seus fãs que lhe respondessem em espanhol.
Até mesmo um membro da Confederação Africana de Futebol (CAF), Ibrahim Sannie Daara, atacou os 'Bafana Bafana' na rede social X: "Vocês não podem maltratar a África e esperar uma bênção em escala mundial", antes de ter que suavizar suas declarações para conclamar todos os africanos a "vestir a camisa" sul-africana.
Edwin, um comunicador queniano de 50 anos, disse estar decidido a apoiar a África do Sul como equipe africana e rejeitou "julgar qualquer país em nome de uma minoria" xenófoba.
Recordou também tempos mais difíceis no leste da África, quando o ditador Idi Amin Dada fez com que dezenas de milhares de ugandeses de origem índio-paquistanesa fossem expulsos em 1972, algo que "nem todos os ugandeses apoiavam".
Por sua vez, a Federação Sul-Africana de Futebol denunciou na quarta-feira em um comunicado, o "assédio online" e as "mensagens ofensivas" dirigidos ao jogadores, que classificou como "inaceitáveis".
Durante uma coletiva de imprensa na quinta-feira, o goleiro e o capitão dos 'Bafana Bafana', Ronwen Williams, confessou que sofre com a polêmica.
"Você quer se concentrar no seu trabalho, que é ser jogador de futebol, mas acabam te envolvendo na política, um lugar em que você realmente não tem vontade de estar".
M.Anderson--CPN