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A busca extenuante por corpos sob os escombros em Gaza
Diante da pilha de escombros que antes era seu lar, Ahmed Salim não consegue conter as lágrimas. Ali estão os corpos de seus entes queridos, que ele deseja enterrar com dignidade.
Mais de 30 pessoas morreram quando sua casa foi atingida, entre elas "minha esposa, meus filhos, minha mãe, meu pai", relata à AFP.
"Sou o único sobrevivente", diz ele, apontando para o monte de concreto e metal retorcido que antes era um prédio de cinco andares no bairro de Zeitun, na Cidade de Gaza.
O edifício foi destruído em 24 de dezembro de 2024 e, desde então, Salim espera para recuperar os corpos e dar-lhes um enterro digno.
"A única coisa que me importa é enterrá-los", enfatiza o homem de 43 anos.
Após dois anos de guerra entre Israel e o Hamas, que devastaram a Faixa de Gaza, milhares de outros palestinos estão em situação semelhante.
Segundo dados da ONU, até o final de setembro, o Exército israelense havia danificado ou destruído 83% dos edifícios que existiam em Gaza antes da guerra.
O território palestino, densamente povoado, está coberto por 61,5 milhões de toneladas de escombros, quase 170 vezes o peso do Empire State Building de Nova York.
Mahmud Basal, porta-voz da agência de Defesa Civil de Gaza, estima que cerca de 10 mil cadáveres ainda estejam soterrados sob os escombros.
"Não podemos extrair milhares de corpos sem máquinas pesadas. Precisamos de meios para levantar tetos e toneladas de cimento", detalha Basal.
"Minha esposa, meu filho Samir e minha filha Lana continuam sob os escombros", comenta por sua vez Iyad Rayan, ao lado do que restou de sua casa na Cidade de Gaza, que segundo contou foi destruída no início de outubro.
"Peço ajuda ao mundo inteiro para recuperá-los", clama o homem de 55 anos.
– Injustiça –
Após o início do cessar-fogo, em 10 de outubro, Israel permitiu a entrada de escavadeiras egípcias em Gaza para ajudar a recuperar os restos de reféns que deveriam ser devolvidos em virtude do acordo de trégua mediado pelos Estados Unidos.
"O mundo é injusto. Vemos escavadeiras trabalhando para recuperar os prisioneiros israelenses, enquanto ninguém se preocupa com os milhares de nossos mártires", lamenta Abdel Aal, que espera conseguir recuperar os restos de seu filho e de seu irmão.
O ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 em Israel resultou em 1.221 mortos. O ataque de represália israelense em Gaza matou mais de 69.500 pessoas, segundo números do Ministério da Saúde do território controlado pelo Hamas, considerados confiáveis pela ONU.
Desde o cessar-fogo, os palestinos conseguiram recuperar cerca de 500 corpos em áreas onde os trabalhadores de emergência puderam acessar após a retirada parcial das forças israelenses, detalha Basal.
O fim dos combates permitiu que Amer Abu al Tarabish retornasse a Beit Lahia, no norte de Gaza, para recuperar os corpos de seus pais de entre as ruínas de sua casa familiar "com minhas próprias mãos", relata.
"Meus pais, meu irmão e seus filhos, sua esposa, meu tio, a esposa dele e seus filhos… Trinta pessoas permaneceram sob os escombros por mais de um ano", insiste.
"Tirei seus corpos intactos. Não estavam decompostos", descreve, "dominado pela tristeza, pela perda e pela dor".
Basal afirma que milhares de pessoas foram dadas como desaparecidas, especialmente durante os grandes deslocamentos populacionais quando os combates se moviam de um lugar para outro.
"Não sabemos se foram assassinadas ou presas" pelas forças israelenses, afirma.
Quanto às famílias que enterraram às pressas seus entes queridos durante a guerra, muitas consideram que são sepulturas temporárias ou sentem que os ritos adequados não foram cumpridos.
Mohamed Naim, de 47 anos, relata que sua família teve que enterrar 43 parentes em apenas sete túmulos. "Colocamos os restos de cada família em um único túmulo. Mas juramos que os exumaríamos e voltaríamos a enterrá-los, com dignidade, na Cidade de Gaza", enfatiza.
A.Mykhailo--CPN