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Rio poluído alimenta temores após retorno da mineração em El Salvador
O rio San Sebastián já não tem peixes. As águas poluídas com os rejeitos que recebe de uma antiga mina de ouro extinguiram-nos. Agora que a mineração voltou a ser legal em El Salvador, o temor é que este fenômeno se repita em outras partes do país.
A proibição da mineração, que estava em vigor desde 2017, foi revogada em dezembro a pedido do presidente Nayib Bukele. De acordo com o mandatário, um estudo cuja autoria não foi revelada afirma que o país tem depósitos de ouro avaliados em US$ 131 bilhões (R$ 766 bilhões na cotação atual), o equivalente a "380% do PIB".
Mas os ambientalistas duvidam destes números e afirmam que a mineração trará mais danos do que benefícios, citando o caso do poluído rio San Sebastián.
Em Santa Rosa de Lima, a 172 quilômetros da capital, o esgoto cai no rio a partir da colina de San Sebastián, onde uma mina de ouro está desativada desde 2006, após um século em atividade.
A líder comunitária Graciela Funes coleta uma amostra do rio e o líquido cor de cobre pode ser visto na garrafa: "Aqui estão os fatos. Não podemos permitir essa situação (...), somos seres humanos e todos nós precisamos desse líquido vital [água]", acrescenta a mulher de 67 anos.
Em 2016, a Procuradoria para a Defesa dos Direitos Humanos declarou em um relatório que a mina havia "impactado severamente a qualidade e a disponibilidade" de água nessa área agrícola do departamento de La Unión.
O relatório, que possivelmente contribuiu para que o Congresso proibisse a mineração um ano depois, observou que a população que vive perto da mina "conseguiu subsistir nesse ambiente crítico" graças à "compra de água".
- "Dívida pendente" -
A mina de San Sebastián foi considerada "a mais produtiva da América Central" durante grande parte do século XX, explica a bióloga Cidia Cortés, autora de um estudo sobre mineração em San Salvador.
Entre 1904 e 1953, empresas estrangeiras extraíram pelo menos 32 toneladas de ouro desta mina, mas sua exploração "deixou um legado de miséria, doenças e danos ambientais", de acordo com o mesmo relatório.
"Resolver os danos ambientais, à saúde, causados pelos projetos de mineração era uma dívida pendente do Estado (...) Hoje essa dívida ainda está em vigor e está piorando porque haverá mineração novamente", acrescenta a bióloga.
Os ambientalistas temem que a mineração polua, por exemplo, o rio Lempa, que passa por áreas com potencial de mineração e fornece água para 70% dos habitantes da capital.
No entanto, a reintrodução desta atividade também tem seus apoiadores.
"O país tem a oportunidade de avançar para o desenvolvimento econômico com a mineração e poderia haver melhores condições de vida para a população", disse à AFP o analista político Nelson Flores.
"A mineração avançou e há métodos mais modernos de extração, respeitando o meio ambiente e protegendo os recursos naturais", acrescentou.
O presidente da ONG Centro Salvadoreño de Tecnología Apropiada, Ricardo Navarro, garante que "a quantidade de reservas de ouro em El Salvador foi superestimada", adicionando que "a concentração de ouro no solo salvadorenho é de um grama por tonelada de rocha: pouco ouro e muitos danos".
Para a economista Julia Martínez, Bukele está interessado no "dinheiro que poderia ser obtido" para o Tesouro, mas "não vemos um estudo que explique se esse ouro realmente existe", diz ela, afirmando que as empresas estrangeiras que obtiverem concessões de mineração tentarão pagar "migalhas" em royalties.
H.Cho--CPN