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Molière volta aos palcos graças a peça criada com IA
O que o maior dramaturgo da França poderia ter escrito se não tivesse morrido em 1673? Uma equipe de pesquisadores e artistas franceses usou a inteligência artificial (IA) para criar uma peça de teatro que, segundo eles, poderia ter sido feita pelo próprio Molière.
"O Astrólogo, ou Os Falsos Presságios" é o resultado de três anos de colaboração entre a Universidade da Sorbonne e o Obvious, um coletivo de três artistas especialistas em novas tecnologias, que treinaram a IA para imitar o estilo do famoso dramaturgo francês.
Molière, autor de peças famosas como "O Avarento" e "O Misantropo", é considerado o pai da comédia francesa moderna.
Esta nova sátira, escrita em francês do século XVII, será representada esta semana na ópera real do Palácio de Versalhes, nos arredores de Paris. Conta a história de um pai tão obcecado pela astrologia que, por uma previsão dos astros, quer obrigar sua filha a se casar com um velho fabricante de perucas.
Para executar o projeto, foi preciso treinar a IA "da forma mais sutil e documentada possível", para ser "fiel ao processo criativo" do escritor, explica à AFP Pierre-Marie Chauvin, vice-presidente da Sorbonne.
Para isso, usaram principalmente a ferramenta de IA generativa Le Chat, da empresa emergente francesa Mistral, e a treinaram com as peças de Molière, assim como com diálogos e tratados de filosofia.
Especialistas em literatura e técnicas teatrais antigas revisaram o texto gerado, que também foi submetido a comitês de leitura para verificar, por exemplo, sua sintaxe e coerência.
"Para a criação da peça, houve pelo menos 20.000 idas e voltas entre algoritmos e a equipe", explica Gauthier Vernier, do Obvious.
A IA também foi treinada para criar umas 15 peças de figurino, além da música e dos cenários.
- "Superpoderes" -
O projeto, que custou um milhão de euros (aproximadamente R$ 6 milhões), financiados por mecenas americanos e franceses, é apresentado como a primeira peça teatral escrita com IA, segundo seus criadores.
O tema da astrologia se impôs rapidamente, pois Molière estava interessado em "denunciar a ingenuidade humana", afirma Mickael Bouffard, diretor do Teatro Molière Sorbonne, que busca recuperar técnicas teatrais do século XVII.
"A trama é muito molieresca", garante.
Para os figurinos e os cenários, a tecnologia foi treinada com esboços de Henri de Gissey, criador de vestuário e cenógrafo da corte do rei Luís XIV.
A AFP teve acesso a um ensaio da peça em um teatro no oeste de Paris. A trama e os diálogos pareciam verossímeis, mas o uso do francês clássico e uma declamação fiel da época poderia confundir os espectadores.
O uso da IA é um dos temas mais controversos atualmente na indústria do entretenimento. Mas as equipes deste projeto da Sorbonne o defendem como um experimento cultural inovador. "A IA nos dá superpoderes que não temos: uma memória universal e rapidez para escrever", diz Bouffard.
C.Peyronnet--CPN