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Gisèle Pelicot revela dor e resiliência em seu livro de memórias
A francesa Gisèle Pelicot publicará na próxima terça-feira suas memórias, nas quais escreve sobre os estupros cometidos por seu ex-marido e por dezenas de desconhecidos enquanto estava dopada, e sobre o julgamento histórico que a transformou em um ícone feminista mundial.
Estes são alguns dos temas abordados no livro "Um hino à vida", que estará à venda a partir de 17 de fevereiro em 22 idiomas.
- Incredulidade -
As memórias, escritas junto com a jornalista e romancista Judith Perrignon, começam em 2 de novembro de 2020, dia em que Gisèle e o marido, Dominique Pelicot, foram convocados à delegacia da localidade de Carpentras, perto de sua residência em Mazan, no sul da França.
Segundo trechos do livro publicados na terça-feira pelo jornal francês Le Monde, ao ser perguntada sobre o marido, Gisèle o descreve como "bondoso, atencioso. Um homem fantástico". Minutos depois, seu mundo desaba ao saber que, durante anos, foi estuprada por ele e por pelo menos 50 desconhecidos, depois de tê-la sedado.
Quando a polícia lhe mostra imagens dos crimes, ela não consegue acreditar. "Meu cérebro parou", escreve. "Eu não reconhecia os indivíduos. Nem aquela mulher. Tinha a bochecha tão flácida, a boca tão mole. Era como uma boneca de pano".
O livro alterna capítulos dedicados aos horríveis fatos que teve de suportar, tanto a nível pessoal, familiar e judicial, com em outros em que narra sua vida anterior e fala sobre sua família, especialmente da avó e da mãe, que morreu quando ela tinha nove anos.
- Julgamento público -
A francesa de 73 anos também recorda o julgamento de Avignon em 2024, de repercussão internacional pela magnitude dos fatos, o número de acusados e a decisão de solicitar que as audiências fossem públicas.
Embora inicialmente quisesse que o julgamento fosse a portas fechadas, acabou decidindo que fosse aberto ao público e que a vissem cara a cara com seus agressores, para que "a vergonha mudasse de lado", afirmou.
"Quando lembro do momento em que tomei minha decisão, penso que, se eu tivesse vinte anos a menos, talvez não tivesse ousado rejeitar o julgamento a portas fechadas. Teria temido os olhares, esses malditos olhares com os quais uma mulher da minha geração sempre teve que lidar", afirma nas memórias, segundo o Le Monde.
"Talvez a vergonha vá embora mais facilmente quando você tem setenta anos e ninguém presta mais atenção em você. Não sei. Não tinha medo das minhas rugas nem do meu corpo", escreve.
- Aplausos -
Gisèle também rendeu agradecimentos ao público, em sua maioria mulheres, que a aplaudia do lado de fora do tribunal. "Essa multidão me salvou", conta.
O apoio também a ajudava a enfrentar as audiências, quando tinha que depor. Não precisava procurar as palavras, relata no livro, "alimentadas e reconfortadas graças àquela multidão lá fora, que crescia e me escoltava todos os dias nos arredores do tribunal".
A essas mulheres "que me transmitiram uma força incrível", disse em uma entrevista divulgada nesta quarta-feira (11) pelo semanário Télérama, "agradeço porque, sem elas, não sei se teria aguentado".
- Otimismo -
"Sempre tive essa alegria de viver. Sou uma otimista incondicional", disse a autora. Por este motivo, apesar dos terríveis acontecimentos que viveu, "estou viva e me permito ser feliz". "Você pode ter amigos e até se apaixonar novamente, como é o meu caso", acrescenta.
Sua firmeza e fortaleza que, segundo ela, vêm da família, sobretudo quando perdeu a mãe na infância, deram a volta ao mundo durante o julgamento, a ponto de transformá-la em um ícone feminista para muitos.
"Não me sinto muito à vontade com a palavra 'ícone'. Eu a aceito, claro, por todas as mulheres que me dizem isso, mas é um pouco demais para mim", afirma.
Ainda assim, afirma que escreveu suas memórias porque sua história "poderia dar esperança a outras pessoas, especialmente às vítimas, às mulheres traumatizadas".
Gisèle Pelicot fará uma turnê pela França para apresentar seu livro. Também viajará a Londres em 20 de fevereiro, onde protagonizará um evento no qual as atrizes Juliet Stevenson e Kristin Scott Thomas lerão trechos da obra.
Posteriormente, viajará a outros países, como Alemanha, Espanha, Itália e Estados Unidos.
P.Kolisnyk--CPN