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Lula defende multilateralismo em reunião do Brics marcada por tarifas de Trump
O presidente Luiz Inácio Lula Silva advertiu neste domingo (6) que o multilateralismo está "sob ataque", durante a reunião de cúpula do Brics no Rio de Janeiro que pretende rejeitar o protecionismo, no momento em que Donald Trump se prepara para implementar tarifas elevadas contra vários países.
Ao abrir a cúpula de dois dias, que não conta com as presenças dos presidentes chinês Xi Jinping e russo Vladimir Putin, Lula também pediu aos países do grupo que não permaneçam "indiferentes" ao "genocídio" de Israel em Gaza.
"Absolutamente nada justifica as ações terroristas perpetradas pelo Hamas. Mas não podemos permanecer indiferentes ao genocídio praticado por Israel em Gaza e à matança indiscriminada de civis inocentes", disse Lula, que sempre se mostrou muito crítico à campanha israelense.
O grupo, formado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, foi recentemente ampliado para 11 países e representa quase metade da população mundial e cerca de 40% do PIB.
"Com o multilateralismo sob ataque, nossa autonomia está novamente em xeque. Avanços arduamente conquistados, como os regimes de clima e comércio, estão ameaçados", afirmou Lula.
O bloco tenta mostrar união contra o protecionismo de Trump, pouco após o presidente americano alertar que enviará, nos próximos dias, cartas aos aliados comerciais dos Estados Unidos para informar sobre a implementação de suas já anunciadas tarifas.
Em 9 de julho expira o prazo concedido por Washington a dezenas de economias para negociar um acordo que evite a imposição de tarifas alfandegárias adicionais que, segundo afirmou durante a semana, ficarão entre 10% e 70%.
Em sua declaração final, os membros do Brics expressam "séria preocupação com o aumento de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais que distorcem o comércio", segundo o rascunho do texto ao qual a AFP teve acesso.
Mas a declaração acordada entre os negociadores não menciona diretamente o presidente Trump, enquanto vários países, como a China, negociam de modo bilateral com os Estados Unidos suas disputas tarifárias.
- Influência econômica crescente -
Putin afirmou em um discurso por videoconferência que "a autoridade e a influência" do Brics "não para de crescer no mundo".
"O centro da atividade econômica está se deslocando para os mercados emergentes", declarou, de Moscou, Putin, que é alvo de um mandado de prisão internacional por supostos crimes de guerra na Ucrânia.
A ausência de Xi Jinping no encontro é algo inédito desde que ele assumiu o poder em 2012. Também não está presente o presidente iraniano Masud Pezeshkian.
Após as ameaças de Trump de impor tarifas de 100%, não se espera, no entanto, que prospere a ideia de impulsionar uma moeda alternativa ao dólar para o comércio entre os membros dos Brics, uma ideia cogitada há muito tempo pelo grupo.
A presidente do banco do Brics, ex-presidente brasileira Dilma Rousseff, descartou a ideia.
"Hoje não tem ninguém querendo assumir o lugar dos Estados Unidos (...) Como é que você fornece uma moeda hegemônica para o resto do mundo?", questionou no sábado. "Não vejo possibilidade de que isso esteja ocorrendo", acrescentou.
- Consenso sobre o Oriente Médio -
Os negociadores alcançaram, no sábado, um consenso sobre a escalada bélica no Oriente Médio, que envolveu um de seus membros, o Irã.
Sócio do grupo desde 2023, Teerã aspirava um tom mais duro do Brics sobre o conflito na região, segundo uma fonte que participou das negociações.
Mas a declaração final manterá a "mesma mensagem" que o grupo emitiu em um comunicado em junho, no qual manifestou sua "profunda preocupação" com os bombardeios contra o Irã, sem mencionar Israel e Estados Unidos.
Israel iniciou uma campanha aérea sem precedentes em 13 de junho contra o Irã, país que acusa de ter a intenção de desenvolver armamento nuclear. Teerã nega.
O governo dos Estados Unidos se uniu à ofensiva israelense com bombardeios contra as instalações nucleares. O Irã respondeu com ataques a Israel e contra uma base americana no Catar, antes de Trump anunciar uma trégua do conflito.
O Brics também divulgará declarações sobre mudanças climáticas - tema crucial para o Brasil, que receberá a COP30 na cidade de Belém no final do ano -, inteligência artificial e cooperação na área de saúde.
A.Levy--CPN