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Estratégia de Trump na China
Desde que reassumiu o poder em Washington, Donald Trump lançou uma campanha para remodelar a relação com a China. Em 2 de abril de 2025, o presidente proclamou o “Dia da Libertação”, impondo um imposto geral de 10 % sobre todas as importações e um tarifa recíproca de 34 % sobre bens chineses, acumulada a um imposto de 20 % sobre produtos associados ao tráfico de fentanil. Dias depois, diante das retaliações de Pequim, a tarifa recíproca foi elevada para 84 % e depois 125 %, atingindo uma alíquota final de 145 %. Em maio, um acordo provisório reduziu essa tarifa para 10 % por 90 dias. Apesar de duas extensões, a trégua tarifária permanece frágil, pois, sem novos acordos, a alíquota retorna aos níveis originais em 2026.
A medida desencadeou uma guerra comercial sem precedentes. O governo norte‑americano anunciou tarifas adicionais sobre madeira, móveis e outros produtos, enquanto Pequim respondeu com um imposto de 34 % sobre produtos americanos e controles de exportação. Na disputa, os EUA também impuseram taxas sobre importações associadas ao fentanil e abriram investigações para ampliar tributos sobre móveis e madeira. A trégua tarifária anunciada após a cúpula de Busan, em outubro, estendeu a tarifa reduzida de 10 % até novembro de 2026, mas conservou a tarifa de 20 % sobre o fentanil.
A resposta chinesa e o jogo dos minerais
A decisão americana expôs a dependência de Washington de matérias‑primas críticas. Para evitar paralisar a indústria de alta tecnologia, Trump excluiu minerais essenciais – como ítrio, gálio, lítio e cobalto – da lista de bens tarifados. Mesmo assim, a China impôs duas ondas de controles de exportação sobre elementos de terras raras em abril e outubro de 2025. As restrições tornaram‑se o instrumento mais poderoso de Pequim: a China controla cerca de 69 % da produção global de terras raras e mais de 90 % da capacidade de refino, e suspendeu temporariamente parte das medidas até novembro de 2026. Os controles elevaram os preços e evidenciaram a vulnerabilidade das cadeias globais.
A Casa Branca reagiu anunciando em março de 2025 um decreto para aumentar a mineração doméstica e negociou um acordo de fornecimento com a República Democrática do Congo, maior produtor de cobalto. Entretanto, especialistas alertam que a construção de novas cadeias demora anos, e a dependência de insumos chineses persiste. Ao mesmo tempo, a União Europeia aprovou o Ato de Matérias‑Primas Críticas e lançou iniciativas para diversificar fornecedores e estocar minerais estratégicos, temendo que as restrições chinesas retardem a transição energética e encareçam produtos verdes.
Chips, exportações e a vantagem tecnológica
A disputa não se limita às mercadorias básicas. Os Estados Unidos restringiram a venda de semicondutores avançados para a China, mas a estratégia tornou‑se contraditória. Ao mesmo tempo em que pressiona os rivais, a administração Trump aceitou permitir à Nvidia exportar o chip H200 após uma reunião com Xi Jinping em Busan, pois acredita que manter o mercado chinês preserva a liderança americana em tecnologia. Na visão de críticos, a abordagem transacional de Trump sacrifica a coerência: busca conter a ascensão tecnológica de Pequim enquanto negocia concessões caso a caso. As autoridades chinesas, por sua vez, investem maciçamente em semicondutores – com aportes anuais equivalentes a todo o programa norte‑americano de subsídios à indústria de chips – e almejam dominar a cadeia, da mineração aos circuitos integrados.
Para compensar a dependência de cadeias estrangeiras, a Casa Branca também anunciou investigações sob o International Emergency Economic Powers Act e ameaçou dobrar tarifas. Em resposta, a China expandiu seu arsenal além das tarifas: aplicou portagens sobre navios, restringiu vistos e limitou investimentos de empresas norte‑americanas. A trégua em Busan incluiu a suspensão temporária dessas medidas e compromissos de Pequim de coibir o tráfico de precursores de fentanil. No entanto, analistas observam que os instrumentos de segurança nacional tornaram‑se moeda de troca nas negociações comerciais.
Uma nova Estratégia de Segurança Nacional
Em dezembro de 2025, a Casa Branca divulgou a Estratégia de Segurança Nacional de 2025. O documento representa uma ruptura com a retórica de confronto militar que marcou as administrações anteriores: a rivalidade com a China é tratada quase exclusivamente sob o prisma econômico. A estratégia abandona a “ordem internacional liberal”, rejeita a ideia de dominação global e defende um retorno ao primado hemisférico inspirado na Doutrina Monroe. As prioridades são combater a imigração ilegal, o narcotráfico e conter a influência chinesa na América Latina. A relação com Pequim é descrita como um problema de rebalanço econômico, enfatizando a necessidade de reduzir subsídios estatais chineses, roubo de propriedade intelectual e práticas comerciais desleais.
O texto admite que as apostas feitas em décadas de abertura econômica à China foram erradas: ao transferir fábricas e investir no país asiático, os EUA enriqueceram um competidor que agora usa sua riqueza para disputar liderança global. No entanto, a estratégia pouco detalha sobre instrumentos concretos, limitando‑se a prometer o fim de “subsídios predatórios”, “práticas injustas” e “espionagem industrial”. A experiência amarga da guerra tarifária – que levou a China a restringir terras raras e a acumular um superávit comercial recorde de mais de US$ 1 trilhão – explica a ausência de novas ameaças tarifárias.
O pivô hemisférico e a esfera de influência
O documento de segurança também introduz o chamado “corolário Trump” à Doutrina Monroe, propondo que os Estados Unidos recuem de aventuras globais para consolidar sua primazia nas Américas. Essa mudança inclui operações e ameaças contra países como Argentina, Venezuela, Panamá, México, Canadá e até a Groenlândia. Além disso, a estratégia considera a presença chinesa na região – em portos, infraestrutura e investimentos – uma ameaça direta. A administração busca empurrar Pequim para fora da América Latina, ao mesmo tempo em que incentiva aliados a compartilhar o fardo da defesa. Para críticos europeus, a ênfase no hemisfério retira os EUA da função de provedor global de estabilidade e abre espaço para instabilidade internacional.
A cúpula de Busan e a trégua frágil
A guerra econômica encontrou um momento de pausa em 30 de outubro de 2025, quando Trump e Xi se reuniram em Busan, Coreia do Sul, à margem da cúpula da APEC. O encontro de cem minutos produziu um acordo que prorrogou a trégua tarifária de 10 % por um ano, suspendeu a implementação de novas regras de controle de exportações norte‑americanas e comprometeu a China a ampliar a compra de soja e outros produtos agrícolas. Pequim também prometeu facilitar o acesso americano a minerais críticos e desbloquear o fornecimento de materiais para a produção de semicondutores convencionais, enquanto Washington suspendeu taxas sobre navios e retrocedeu em algumas sanções. As partes anunciaram a intenção de colaborar no combate ao tráfico de fentanil, na inteligência artificial e no controle de imigração ilegal.
Apesar dos gestos, especialistas do Brookings Institution e de outras entidades ressaltam que o acordo não resolve as causas estruturais da disputa. Os dois países permanecem interdependentes: os EUA dependem das terras raras chinesas; a China precisa de tecnologias de ponta norte‑americanas. A retórica de autossuficiência é mais declaratória do que prática, e a trégua é descrita como um cessar‑fogo frágil. Enquanto isso, Pequim apresenta‑se como defensora do livre‑comércio e do multilateralismo, mas seu novo plano quinquenal visa reforçar a autossuficiência industrial e acelerar a inovação doméstica.
Conclusão
A estratégia de Donald Trump para “transformar a China” combina nacionalismo econômico, tarifas punitivas, disputa tecnológica e recomposição geopolítica. Em pouco mais de um ano, a ofensiva tarifária despertou retaliações duras, expôs a vulnerabilidade dos EUA em minerais estratégicos e desencadeou medidas de controle de exportação chinesas que ameaçam as cadeias globais. A nova doutrina de segurança reflete um reposicionamento histórico: o foco desloca‑se do Indo‑Pacífico para as Américas, com a rivalidade sino‑americana vista pela lente do comércio e da indústria. A cúpula de Busan ofereceu alívio temporário, mas não alterou a realidade de que Washington e Pequim exercem controle mútuo sobre setores críticos. A transformação almejada por Trump, portanto, passa menos por submeter a China e mais por reconfigurar a economia americana e fortalecer alianças que reduzam a dependência de insumos asiáticos. Até agora, a estratégia intensificou a competição e obrigou o mundo a reconhecer a interdependência que une as duas maiores economias do planeta.