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'Anora', a 'carta de amor' ao Brooklyn mais excêntrico que sonha com o Oscar
Brighton Beach, um enclave pós-soviético no final da linha B do metrô de Nova York, e Coney Island, a algumas paradas de distância na linha Q, são os dois bairros excêntricos à beira-mar do Brooklyn onde se passa “Anora”, um filme independente de baixo orçamento que concorre ao Oscar neste domingo.
Apesar de seus encantos, que incluem uma vida noturna regada a vodca, casacos de pele e agasalhos até tarde da noite no primeiro, e uma montanha-russa de madeira de 100 anos e um calçadão colorido no segundo, Brighton Beach e Coney Island não costumam fazer parte da filmografia de uma cidade acostumada a closes.
Em Anora, esses dois bairros são o cenário para a caótica busca noturna do filho de um oligarca russo, Ivan, que tenta escapar da vigilância de capangas do Leste Europeu contratados por seu pai depois de se casar com a prostituta do título do filme.
Anora, apelidada de Ani, mora embaixo do trem elevado que serpenteia por Brighton Beach, um bairro que, desde meados da década de 1970, tem sido um refúgio para imigrantes da Rússia, Ucrânia e outras ex-repúblicas soviéticas.
Nessa comunidade, os bolinhos de massa pelmeni e vareniki estão no cardápio, e os mais experientes podem comprar caviar a preços de barganha.
O diretor Sean Baker “queria descobrir esse microcosmo de um mundo que só existe ali... esse bairro de pessoas que falam sua própria língua e preservaram sua própria cultura”, disse à AFP Ross Brodar, gerente de locação do filme.
“A cidade se gentrificou”, mas neste "enclave ainda há russos ancorados no tempo", diz Brodar, que também tem um pequeno papel no filme como guarda de segurança. “Acho que é disso que todo mundo gosta”.
- “Carta de amor” -
Parte do carisma de Brighton Beach se deve à reputação de seus moradores desconfiados: eles toleram pessoas de fora, mas não é fácil ganhar a confiança deles para fazer um filme.
Para garantir as locações, Brodar trabalhou com um intermediário que falava russo para estabelecer relações com os proprietários de empresas locais e mostrar a eles que “eu não estava tentando explorar a situação, mas sim trazer algo para a mesa”.
“Um dos meus slogans era 'esta é uma carta de amor para Brighton Beach'”, lembra ele.
Ajudou o fato de Yura Borisov, uma grande estrela do cinema russo, estar no elenco: quando os habitantes locais o reconheceram, o projeto ganhou credibilidade nas ruas”, explica Brodar.
Muitas vezes filmado com pessoas reais em suas vidas cotidianas, Brodar se lembra de uma noite em que filmou uma cena no clássico restaurante Tatiana Grill, à beira-mar, onde os atores estavam procurando por Ivan, e a paciência dos clientes começou a se esgotar à medida que as tomadas se arrastavam.
“Se vocês não saírem daqui, vou esfaquear um de vocês”, disse um cliente.
- Autenticidade -
Na orla de Brighton Beach, em Coney Island, a produtora do filme, Neon, ergueu um outdoor agradecendo à comunidade por permitir a entrada da equipe.
É lá que está localizada a Williams, uma loja com mais de 80 anos cujas vitrines atraem os clientes com algodão-doce e praticamente todas as guloseimas cobertas de chocolate imagináveis.
A colorida loja de doces aparece no filme, inclusive em uma cena infame em que o personagem de Borisov a destrói, lançando bolas de goma de mascar pelos ares.
Billy O'Brien, 74 anos, interpreta o gerente da loja. O diretor recrutou o nativo de Coney Island - que trabalha como atendente de estacionamento e também ajuda na loja - para interpretar o papel que se tornou um dos personagens mais queridos do filme, embora ele ainda não tenha assistido ao filme.
“Por que iria querer me ver?”, ele ri para a AFP.
O verdadeiro gerente da loja, Peter Agrapides, diz que a decisão de Baker de apresentar O'Brien e seu sotaque carregado ajuda o filme a parecer “autêntico”.
Agrapides nunca imaginou, no entanto, que sua loja seria apresentada em um filme indicado ao Oscar depois de ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes e vários prêmios de diretores, produtores, roteiristas e críticos de Hollywood.
Ng.A.Adebayo--CPN