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Sobreviventes de Auschwitz denunciam antissemitismo nos 80 anos de sua libertação
Vários dos sobreviventes de Auschwitz voltaram, nesta segunda-feira (27), ao campo de extermínio nazista e denunciaram o "grande aumento" do antissemitismo por ocasião dos 80 anos de libertação deste símbolo abominável do Holocausto.
Auschwitz foi o maior campo de extermínio construído pela Alemanha nazista. Um milhão de judeus e mais de 100 mil pessoas não judias morreram ali entre 1940 e 1945.
Meia centena de sobreviventes se posicionaram, nesta segunda, na entrada do campo de Auschwitz-Birkenau, ao lado do rei Charles III da Inglaterra; do presidente francês, Emmanuel Macron, e dezenas de outros dirigentes.
Marian Turski, Tova Friedman, Leon Weintraub e Janina Iwanska foram os escolhidos para falar sobre o que significou estar ali.
"Hoje estamos vendo um grande aumento do antissemitismo, embora tenha sido precisamente o antissemitismo que levou ao Holocausto", alertou Turski, de 98 anos, diante de um dos vagões de gado usados para transportar as vítimas para Auschwitz.
- "Antissemitismo galopante" -
Friedman, de 86 anos, denunciou uma realidade em que "nossos valores judaico-cristãos foram ofuscados em todo o mundo pelos preconceitos, o medo, a desconfiança e o extremismo, e o antissemitismo galopante que se espalha entre as nações".
Weintraub, um médico sueco de 99 anos, nascido na Polônia, condenou a proliferação dos movimentos de inspiração nazista na Europa.
O presidente do Conselho Judaico Mundial, Ronald Lauder, assinalou que os horrores de Auschwitz e o ataque do grupo islamista palestino Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, foram inspirados no "ódio ancestral aos judeus".
"Hoje temos que nos comprometer a nunca nos calar diante do antissemitismo ou de qualquer outra forma de ódio", disse.
Alguns sobreviventes vestiam gorros e lenços listrados azuis e brancos, em alusão a seus antigos uniformes. Aos pés do muro, que tocaram silenciosamente com uma das mãos, acenderam velas em memória dos mortos.
O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, que esteve entre os dirigentes presentes, disse que o mundo "deve se unir para impedir a vitória do mal", declarações interpretadas como uma alusão à Rússia.
Já o presidente russo, Vladimir Putin, prestou homenagem aos soldados soviéticos, que venceram "um mal terrível e total" ao libertar o campo, em mensagem publicada pelo Kremlin.
Esta será a última comemoração de uma década com um grupo tão grande de sobreviventes, lamentaram os organizadores.
"Todos sabemos que em dez anos não será possível ter um grupo tão grande para o 90º aniversário", disse Pawel Sawicki, porta-voz do museu de Auschwitz.
Com o falecimento de muitos dos sobreviventes do Holocausto, "a responsabilidade da memória recai muito mais sobre nós e as gerações futuras", declarou Charles III em visita ao centro judaico de Cracóvia.
- "Para que a História não nos esqueça" -
O campo foi construído em 1940 na cidade de Oswiecim, no sul da Polônia. Os nazistas trocaram seu nome para Auschwitz.
Os primeiros 728 prisioneiros políticos poloneses chegaram em 14 de junho naquele ano.
Em 17 de janeiro de 1945, diante do avanço das tropas soviéticas, os nazistas obrigaram 60 mil prisioneiros a caminhar para o oeste, no que ficou conhecido como a "Marcha da Morte".
Entre 21 e 26 de janeiro, os alemães destruíram as câmaras de gás e os crematórios e se retiraram antes da chegada dos soviéticos.
Quando as tropas do Exército vermelho chegaram, em 27 de janeiro, encontraram 7 mil sobreviventes.
Antes do aniversário, nesta segunda-feira, cerca de 40 sobreviventes dos campos nazistas falaram com a AFP.
Em 15 países, de Israel à Polônia, da Rússia à Argentina, do Canadá à África do Sul, os sobreviventes contaram suas histórias.
"Como o mundo pôde permitir Auschwitz?", questionou, no Chile, Marta Neuwirth, de 95 anos. Ela tinha 15 quando foi enviada da Hungria para Auschwitz.
Esther Senot, de 97 anos, voltou em dezembro a Birkenau com estudantes secundaristas franceses, durante o rigoroso inverno polonês.
Senot cumpriu, assim, com uma promessa feita em 1944 à sua irmã, Fanny, que prostrada e tossindo sangue, pediu-lhe com seu último suspiro: "Conte o que aconteceu conosco (...) para que a História não nos esqueça".
J.Bondarev--CPN