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O luto silencioso dos filhos de migrantes senegaleses desaparecidos no mar
"Fiquei calado desde então", murmura Fallou, de 12 anos, ao lembrar da morte da mãe no naufrágio da piroga -uma embarcação longa e estreita, geralmente de madeira, usada tradicionalmente para pesca e transporte- em que ela tentava chegar à Europa a partir do Senegal.
Sokhna, por sua vez, conta que vive atormentada por sonhos nos quais o pai reaparece depois de desaparecer no mar.
No Senegal, eles são chamados de "os que ficam". São órfãos que enfrentam uma espera insuportável e um luto impossível pelos "ausentes presentes": pais mortos no mar ou dos quais nunca mais se teve notícia após o desaparecimento da embarcação.
O número desses mortos e desaparecidos - e de seus filhos - chega a pelo menos "milhares" no Senegal nos últimos anos, afirma à AFP Saliou Diouf, fundador da associação Boza Fii, que luta contra o esquecimento dos migrantes desaparecidos.
Na cidade portuária de Mbour, ainda existe um tabu em torno da decisão tomada por esses pais de partir.
Também há medo das famílias de falar, já que as autoridades adotam uma política repressiva para impedir a saída das pirogas e prender traficantes de pessoas.
"Chorei muito (...) Depois pensei que era a vontade divina", sussurra Fallou, com fala entrecortada, ao evocar a morte da mãe.
No bairro de pescadores de Tefees, de ruas arenosas e casas precárias, Fallou e o irmão de nove anos se mostram felizes por se reencontrarem, apoiados um no outro no único cômodo habitável da casa da avó, Ndeye Ndiaye.
A vida deles mudou radicalmente quando a mãe, Awa, de cerca de 30 anos, morreu no Marrocos em 2024 após o naufrágio de uma piroga.
Desde a tragédia, "fiquei calado", diz Fallou. O menino não fala sobre o assunto nem com a avó nem com os amigos, apenas com o pai durante as visitas. "Ele me conta que minha mãe era uma boa pessoa", relata.
Como ocorre frequentemente nas famílias em que a mãe migrante desapareceu, a família acabou se desintegrando.
O pai voltou a morar com os próprios parentes e os meninos ficaram com a avó. Mas, pressionada pela pobreza, ela precisou separar os irmãos, confiando o mais novo ao padrinho.
Awa não havia contado à mãe sobre o plano de partir, mas lamentava frequentemente vê-la "cansada" e queria "ajudá-la mais".
- "Reze por mim" -
"Ela apenas me disse que precisava ir a Dakar", a capital, conta Ndeye. Mas certa noite Awa ligou: "Mamãe, peguei uma piroga para chegar à Europa e queria que rezasse por mim".
Duas semanas de angústia depois, uma ligação informou que ela havia morrido em um hospital no Marrocos.
"Não devolveram o corpo dela e continuo presa nisso", murmura Ndeye, incapaz de conter as lágrimas. "Ver crianças inocentes como elas obrigadas a viver sem mãe mexe profundamente com a gente".
Em 2024, pelo menos 10.457 migrantes morreram ou desapareceram na "fronteira euro-africana ocidental" tentando chegar à Espanha pela perigosa rota atlântica, segundo a organização Caminando Fronteras. É o maior número registrado desde o início da contagem, em 2007.
Impulsionados pelo desespero diante da falta de oportunidades no país - desemprego, desaparecimento dos recursos pesqueiros, entre outros fatores - e diante das restrições europeias de vistos e fronteiras, os migrantes acabam recorrendo a embarcações clandestinas, frequentemente velhas e superlotadas.
"Em geral, as famílias não recebem informações suficientes para elaborar o luto", destaca Saliou Diouf, da Boza Fii. "Aceitar o desaparecimento se torna muito difícil".
Às vezes, as crianças descobrem brutalmente a notícia na rua ou na casa de vizinhos. Algumas vivem divididas entre a espera insuportável, a recusa em aceitar a morte e a raiva.
É o caso de Sokhna, de 11 anos, de rosto angelical marcado por um olhar dolorido. A mãe, Fatou Ngom, vive com ela e os outros filhos em um quarto e pátio alugados, compartilhados com várias famílias em Mbour.
O pai, Assane, desapareceu depois que a piroga em que viajava pegou fogo no litoral em 2022.
Sem mais detalhes, Fatou apenas ouviu dizer que ele "estava entre as vítimas".
- Pobreza agravada -
A mãe conta que, desde então, Sokhna vive momentos de "ausência", sobretudo na escola, além de atraso escolar.
"Às vezes ela sonha e grita 'papai' várias vezes" no quarto onde toda a família dorme.
Embora a relação entre as duas pareça próxima, Sokhna diz sem rodeios que a mãe, ainda devastada pela dor e com muita dificuldade para falar sobre o desaparecimento do marido, "não a entende" quando ela tenta conversar sobre o pai.
"Quando sonho com ele e fico com medo porque realmente sinto que ele está falando comigo, no dia seguinte vou ver minha avó", confidencia. "Ela me conta como meu pai conquistou minha mãe e histórias sobre ele".
"Sempre penso no meu pai quando vejo o mar", sussurra. Foi a avó quem, ao perceber sua tristeza, aconselhou a menina a evitar passar pela praia e pelo ancoradouro.
Diferentemente da irmã, que enterra a dor, Boubacar, de 14 anos, mal consegue conter a emoção ao recordar aquele dia de 2022.
"Minha família veio buscar minha mãe; ela estava preparando café. Disseram: 'Assane morreu na embarcação'. Ela entrou em choque, começou a chorar e nós também".
"Meu pai queria construir uma casa para nós. Antes de conseguir, Deus levou sua alma", lamenta.
"Penso muito nele, principalmente quando minha mãe não tem dinheiro para as despesas do dia a dia, porque era ele quem nos ajudava a viver", diz aos prantos.
Aos 14 anos, o adolescente já trabalha regularmente depois da escola em uma oficina de serralheria para ajudar a mãe.
Esses órfãos tentam se reconstruir em famílias desfeitas e mergulhadas em uma precariedade ainda mais profunda - redução das refeições, abandono escolar, endividamento. Muitos crescem rápido demais, marcados pelas responsabilidades.
Perto de Boubacar, a irmã Coumba, de cinco anos, descalça e com roupas gastas, se distrai desenhando em uma lousa pendurada na parede do pátio. A menina praticamente cresceu sem conhecer o pai.
"Ela me faz chorar porque sempre pede notícias do pai", confessa Fatou. "Eu respondo que ele está viajando".
"Ela pode enlouquecer se explicarmos isso agora", acrescenta Boubacar.
- Romper o silêncio -
Amy Dramé também não contou a verdade aos filhos de dez, seis e três anos. O marido - que viu todos os colegas pescadores, esmagados pela pobreza, tentarem a travessia - ligou para ela de um barco em 10 de agosto de 2024.
"Ele pediu notícias das crianças e que eu rezasse por ele; foi a última vez que ouvi sua voz", conta, abalada. Um mês depois, as autoridades informaram que a piroga havia naufragado em Cabo Verde, sem sobreviventes.
Amy continua dizendo aos filhos que o pai está em uma temporada de pesca. "São crianças", murmura. "Eles pegam meu telefone para ver vídeos do pai; não vão esquecê-lo".
Tentar romper esse silêncio é o objetivo de um programa pioneiro no Senegal de acompanhamento psicossocial iniciado em 2024.
Cerca de 50 órfãos recebem apoio da ONG católica Delegação Diocesana de Migrações do Senegal (DDM), que começou esse trabalho após constatar o sofrimento das mulheres de desaparecidos, provocado pelo "luto ambíguo" ligado à incerteza sobre a morte.
"Percebemos que muitos filhos delas também sofriam de maneira diferente, mais silenciosa, com muita raiva", explica Jordi Balsells, diretor da DDM.
A ONG realiza três viagens por ano a outras regiões do Senegal e também faz acompanhamento domiciliar.
No centro de Mbour, em um prédio iluminado, as mães trabalham em uma oficina de costura para obter renda extra, enquanto as crianças - todas órfãs de pais migrantes - recebem terapia.
Várias brincam agitadas enquanto aguardam.
Babacar Ndiaye, de 12 anos, tomado pela emoção, não consegue falar sobre o desaparecimento do pai, comerciante de peixe, durante o naufrágio de uma piroga no litoral de Mbour em 2024.
"Você precisa saber que, se quiser falar, estamos aqui", diz suavemente Tesa Reimat Corbella, médica especializada em luto e responsável pelo acompanhamento psicossocial.
- Estigmatização -
Já o irmão de nove anos, Pape Balla, demonstra uma segurança surpreendente. Ele fala segurando duas pequenas figuras de crocodilo e lhama.
"Meu pai não queria partir, mas o homem que organizou a viagem o obrigou!", exclama, em uma tentativa de lidar com o abandono que não compreende. "Dói que ele tenha desaparecido; eu queria que tivesse ficado conosco".
"Tenho amigos no bairro que passaram pela mesma coisa, mas não falamos disso", acrescenta Pape, que também relembra momentos ao lado do pai. "Ele costumava comprar bolas para mim e sinto falta disso".
Assim como Babacar, Bambi Diop, de dez anos, mal consegue articular algumas palavras: "Não quero falar sobre meu pai", diz.
Com delicadeza, a psicoterapeuta Katy Faye a segura pelos ombros e tenta acalmar sua crise de choro. "Quando vou para a escola penso nele", acaba dizendo, explicando que era o pai quem frequentemente a levava às aulas.
A menina permanece parcialmente em negação, afirmando que o pai vive em outra cidade do Senegal e que está "bem". Palavras que surpreendem sua mãe, que garante que a filha "sabe" que ele morreu em um naufrágio em 2024.
Para Tesa, o principal desafio "é romper o silêncio" que cerca o desaparecimento. "É preciso começar a colocar em palavras o que aconteceu, poder falar com as crianças sobre quem era seu pai e trabalhar com o progenitor que ficou".
Ela comemora que a ONG tenha conseguido criar "um espaço seguro, onde podem compartilhar com outras crianças".
"O fato de aceitarem o que aconteceu e poderem falar sobre isso sem medo nem vergonha é o mais importante", ressalta. Mas reconhece que "ainda há muito trabalho pela frente, já que na escola ou na rua ainda existe estigmatização".
Mamadou Diop Thioune, integrante da sociedade civil e especialista há 20 anos em migração, lamenta que o apoio econômico e psicossocial a essas famílias não seja "levado em consideração nas políticas públicas".
Ele aponta a falta de informações das autoridades, assim como a ausência de ferramentas e profissionais capacitados, apesar de as "consequências sociais" dessas mortes e desaparecimentos serem "dramáticas" para o Senegal.
No centro da DDM, a luz suave do fim da tarde acalma o ambiente. As crianças, alinhadas sobre colchões no chão, assistem fascinadas à animação "Kirikou e a Feiticeira".
A sociedade senegalesa precisa estar mais "sensibilizada para a situação dos desaparecidos e de suas famílias", insiste Tesa, "é importante devolver dignidade aos desaparecidos que partiram em busca de uma vida melhor".
Y.Ibrahim--CPN